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Afinal de contas, o que é empreendedorismo?


Antes de mais nada, queremos deixar claro que esse post não pretende ser um artigo científico, apesar de inevitavelmente acabar discutindo alguns conceitos e teorias. O objetivo central dessa postagem é oferecer a nossa visão sobre o que significa empreendedorismo, visto que o termo vem sido amplamente utilizado nos dias atuais, aproximando-se perigosamente de uma banalização. Para não parecer que estamos falando sem embasamento, levantaremos brevemente alguns aspectos teóricos para que depois possamos dar uma descrição livre da nossa visão sobre o tema.


Raízes históricas

A palavra entrepreneur (empreendedor) é datada bem antes de Richard Cantillon - autor irlandês que acabou popularizando o termo à partir do século XVII - desenvolver suas ideias sobre o tema. Cantillon era um banqueiro e hoje poderia ser visto como um venture capitalist (capitalista de risco), uma vez que estava sempre em busca de oportunidades e gerenciamento inteligente dos negócios. Cantillon usava o termo empreendedor fazendo uma analogia com o mundo em que vivia, por isso entendia que os empreendedores eram pessoas que corriam riscos para obter lucros (nada mais capitalista de risco, não é?).

Já Jean-Baptiste Say, também fazia uma analogia do empreendedor ao mundo que vivia, que neste caso era o mundo da indústria e do comércio. Mas diferentemente de Cantillon, Say acreditava que o empreendedorismo só seria possível através da inovação, e passou a entender o empreendedor como um agente de mudanças. Isso fez com que Say se tornasse o pai do empreendedorismo, pelo menos em sua concepção moderna. Mas apesar da existência dessas duas correntes de pensamento, foi Joseph Schumpeter que lançou o campo do empreendedorismo, quando de fato associou o empreendedorismo à inovação e ao desenvolvimento econômico. Foi a partir daí que diversos estudos passaram a ser conduzidos.

A visão desses três autores sobre empreendedorismo ficou conhecida como a escola de pensamento econômica. Houve, porém, aqueles que começaram a entender que o empreendedorismo era, antes de mais nada, uma atividade social. Foi aí que surgiu a escola comportamental do empreendedorismo.

O primeiro a tratar o aspecto comportamental do empreendedorismo foi Max Weber ao dizer que empreendedores eram pessoas inovadoras, independentes e com fortes traços de liderança. Mas foi David McClelland que dedicou-se a um estudo mais aprofundado sobre o tema. O problema foi que McClelland tinha na figura dos grandes gerentes e donos de negócio o perfil do empreendedor. Isso era justo naquela época, mas hoje não mais. Esse é um dos pontos que queremos destacar.


Empreendedor vs dono/gestor de negócio

Após esse breve preâmbulo científico, a partir daqui começa a nossa opinião sobre empreendedorismo. A primeira questão que queremos destacar é que apesar dos empreendedores terem de fato traços de personalidade, assim como Weber e McClelland articularam, não é justo dizer que toda pessoa que tem ou gerencia um negócio é um empreendedor. É essa banalização do termo que temos muito receio que ocorra, se é que já não está ocorrendo. Quando negligenciamos a distinção entre empreendedor e donos/gestores de negócio, colocamos tudo no mesmo pote, e para o empreendedorismo isso não é nada bom, pois começamos a considerar empreendedorismo aquilo que não é. Isso fará (não estamos querendo profetizar) com que a mediocridade seja aceita de forma mais natural, por estar sob a chancela de ser uma atividade empreendedora. E tudo que o empreendedorismo não precisa é ser associado à mediocridade.

Voltando novamente ao aspecto científico, da forma como vemos, o empreendedorismo é uma atividade em que as pessoas passam a ingressar por admiração. Isso foi algo também identificado por McClelland, quando o autor disse que os heróis da literatura eram vistos como modelos para as gerações seguintes pelo fato de terem desafiado os limites. O autor entendeu que um povo treinado sob essa influência, tendia inevitavelmente a imitá-los. Dentro do mundo empresarial acontece o mesmo - são os cases de sucesso que inspiram as pessoas a fazerem o mesmo. Basta ver como os geeks no Vale do Silício enxergam Steve Jobs, Larry Page, Jeff Bezos, entre outros. Lá, ninguém pensa em somente abrir um negócio e se autointitular empreendedor, eles pensam em atingir o mesmo patamar que seus heróis. E quanto mais "locais" foram esses heróis, melhor. É isso que cria a cultura empreendedora.

Por isso, quando vemos muitas pessoas chamando qualquer atividade empresarial de empreendedorismo, isso nos deixa preocupados. Empreendedores não abrem um negócio para fazer negócios, eles abrem um negócio para atingir um propósito. Empresas e pessoas somente em busca de negócios jamais conseguirão inspirar novas gerações a fazer algo novo. O máximo que conseguirão é incentivá-las a abrir um negócio. Logo, elas jamais podem ser chamadas de empreendedoras. Se queremos criar uma cultura empreendedora, precisamos de exemplos. Exemplos de empreendedores de verdade. E eles precisam ser locais. Não nos levem a mal, é muito legal ouvir as histórias do João Apolinaro, Flávio Augusto, Jorge Paulo Lehmann, mas aonde estão os nossos heróis locais? Eu digo: estão ocupados demais para falar sobre o assunto. Esse é o outro ponto que queremos destacar.


Como identificar as pessoas que fizeram o caminho "from zero to hero"?

O verdadeiro empreendedor é aquele que coloca a mão na massa. É simples assim. Ele tenta. Erra. Aprende. Erra de novo. E por aí vai. Mas o mais importante de tudo...é que eles tentam! Um herói perfeito só vai ser encontrado em algum longa metragem de Hollywood. Todos os grandes empreendedores ralaram muito para chegar aonde chegaram e o caminho deles foi cheio de insucessos. Logo, além do propósito, existe uma coisa que todo empreendedor tem em comum: eles falam com conhecimento de causa.

Falar de uma experiência empreendedora é como passar por uma crise renal - só sabe quem esteve lá. Pessoas que falam de empreendedorismo no alto do seu conforto e estabilidade, mas nunca colocaram a mão na massa, jamais terão o que compartilhar. A única coisa que conseguirão fazer é tentar (de forma pomposa) ensinar algo que eles nunca tiveram coragem de fazer. Será que isso inspira alguém? Será que não é por isso que o empreendedorismo no nosso país ainda está tão fragmentado? Ou alguém realmente acha que as iniciativas estão desintegradas porque o empreendedorismo é algo recente no país? Se alguém acha isso, procurem a história de Irineu Evangelista de Sousa - o Mauá - e vejam o quão antigo é o empreendedorismo no Brasil.

Sendo assim, o que precisamos fazer é achar aonde estão esses empreendedores brasileiros e ver o que eles tem a dizer. Eles existem, mas devem estar "escondidos" dentro das suas empresas tentando resolver problemas e sobreviver, assim como várias startups ao redor do mundo. Queremos ouvir mais Robson Calegon (se não conhece, clique aqui) e menos Robinson Shiba (nada contra ele). Tenho certeza que em várias cidades ao redor do país, sejam elas pequenas ou não, vários Robsons Calegons poderiam estar contando o que os inspiram, por que fazem isso e o que já conquistaram. A questão é que muitos deles não glamourizam a sua história, tampouco se autointitulam empreendedores, mesmo sendo.

Então a dica para identificar aquelas pessoas que saíram do zero e tornaram-se heróis é entender um pouco da história da região e dos negócios de cada cidade desse país. Precisamos dar crédito às pessoas que ajudaram a construir a história dessas cidades e que trouxeram (ou ainda trazem) empregos e desenvolvimento para a região, para que assim possamos passar a chamá-los pelo nome certo - empreendedores.


Então, um empreendedor não precisa ser famoso?

Não, um empreendedor não precisa ser rico, famoso, criar cursos online e dizer frases de efeito na internet. Um empreendedor precisa ter um pequeno cientista maluco na sua cabeça que o faça se sentir incomodado com o status quo de qualquer coisa. Pode ser na sua empresa, na sua universidade, no seu cotidiano, em qualquer lugar. O que te fará um empreendedor é a inquietação com o estado atual e a persistência que você terá para mudá-lo. Se a mudança será em pequena ou larga escala, pouco importa. O que importa é ter a coragem para mudar. E a propósito, criar algo em um cenário favorável não é empreender. Empreender é exatamente o oposto disso, como já foi dito antes. Abriu

um restaurante em um local já povoado de restaurantes similares? Desculpe, isso não é empreender, é abrir um negócio. Mas, abrir um restaurante com uma proposta de valor totalmente diferente de tudo o que está sendo oferecido em volta. Bingo! Aí sim você está empreendendo.

Por isso, voltando ao início, na nossa visão, o empreendedor é a junção de tudo aquilo que já foi dito pelos principais pensadores da área. Ele se arrisca, inova e muda. Se der sorte, obterá lucro.

Concluindo, o que queremos dizer com tudo isso é que se queremos criar uma cultura empreendedora, precisamos primeiramente ter cuidado com a banalização do termo. Feito isso, precisamos parar de glamourizar o tema, pois se há algo que não combina com empreendedorismo é glamour. Por fim, precisamos humanizar a discussão achando as pessoas simples que desafiaram limites e que de alguma forma saíram do zero e tornaram-se heróis, transformando (para melhor) o "universo" em que vivem, mesmo estando em um cenário completamente desfavorável. São esses heróis locais que deveríamos estar promovendo. Essa é uma humilde manifestação destinada à todas as organizações e pessoas que enxergam o empreendedorismo como a mola propulsora para a mudança do nosso estado atual.


Para descontrair...

Guy Kawasaki fez uma lista bem humorada do que é ser um empreendedor. Vejam só:


O que os empreendedores NÃO fazem:

- Dizem às pessoas o que fazer;

- Compram coisas legais;

- Viajam para lugares divertidos.


O que os empreendedores FAZEM:

- Criam coisas incríveis;

- Vendem essas coisas;

- Ajudam as pessoas a usar essas coisas;

- Contratam pessoas para ajudar a usar essas coisas;

- Constroem uma empresa.


POR QUE os empreendedores fazem isso?

- Para fazer do mundo um lugar melhor;

- Para fazer algo que as pessoas adoram;

- Para lhe proporcionar uma vida boa.


Até a próxima.

Boa sorte e bons negócios!

#vaialium

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